domingo, 3 de julho de 2016

Vale quanto pesa?

“Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!” Segundo William Shakespeare, estas teriam sido as últimas palavras ditas por Ricardo III antes de morrer, sob as mãos de seus inimigos, durante a batalha de Bosworth em 1485.

Interpretando a criação teatral que leva o mesmo nome de seu protagonista: tendo percebido a morte de seu próprio cavalo durante a batalha e vendo ainda muitos inimigos firmes na luta, o monarca inglês apregoou essa oferta de seu reino como tentativa de salvar um bem maior – sua própria vida. Sem um cavalo as chances de salvá-la seriam nulas, como de fato o foram.

Pois bem, Shakespeare provavelmente escreveu sobre um cavalo ao qual teria sido atribuído o maior valor de toda a história. Um valor equivalente ao do Reino da Inglaterra!

Parece brincadeira, mas o mais famoso dramaturgo inglês definiu assim – em uma simples fala e de forma tão brilhante, quanto incontestável – dois dos conceitos básicos de marketing: troca e valor.

Poucos profissionais de marketing hoje em dia poderiam fazê-lo de maneira tão contundente e tão facilmente compreensível. Isso me faz pensar que eu até poderia parar este artigo aqui, sem duvidar que os que o leem já compreenderam totalmente o meu objetivo de escrita.

No entanto, creio que não ficaria bem terminar de maneira tão brusca. Vamos então aproveitar que já entendemos o assunto para percorrer algumas definições e conceitos que a ele se associam.

Troca: um cavalo por um reino?

A troca é o ato de se obter um produto/serviço desejado de alguém, oferecendo-se algo em contrapartida.

Quando duas entidades (pessoas ou organizações) realizam uma troca, o que se espera é que ambas terminem esse processo em condições melhores do que as em que se encontravam anteriormente. Isto porque a decisão da efetivação dessa troca só é tomada bilateralmente quando tanto o produto/serviço desejado apresenta as características que atendem as expectativas daquele que o vai receber, quanto aquele que entrega reconhece que o que lhe foi ofertado em contrapartida também atende a suas próprias expectativas.

A troca assim efetuada é o conceito básico que define marketing. De acordo com Kotler, para que ela ocorra, cinco são as condições que devem ser atendidas:
  1. Há pelo menos duas partes envolvidas.
  2. Cada parte tem algo que pode ser de valor para a outra.
  3. Cada parte tem capacidade de comunicação e entrega.
  4. Cada parte é livre para aceitar ou rejeitar a oferta.
  5. Cada parte acredita estar em condições de lidar com a outra.
Se estas condições existirem, há um potencial para a troca.

Valor é um conceito multidimensional e idiossincrático

Podemos entender da condição 2 citada, que para que possa ocorrer uma troca aderente ao  conceito definido como a base do marketing, é necessário que as partes reconheçam o valor daquilo que receberão através da troca.

Mas a que nos remete o conceito de valor?


O conceito de valor parte originariamente da filosofia e aplica-se a outras ciências como a sociologia e a economia. Além disso, o valor de um produto, de um serviço, de uma empresa, ou mesmo de um profissional é variável de acordo com o tempo, o lugar, ou mesmo os observadores – as pessoas de relacionamento. Isso tudo porque variam, de acordo com estes itens, as condições do ambiente em que se realiza uma análise de valor.

Economistas, engenheiros, profissionais de finanças e de marketing interpretam o conceito de valor sob diferentes formas.

Os economistas consideram valor como sendo a utilidade por unidade de preço, isto é, utilidade/reais ou dólares. Os profissionais de marketing definem valor como sendo os benefícios percebidos por um cliente, em contraste com o preço pago por um produto ou serviço. Se colocássemos isso em uma fórmula matemática, ela seria assim representada: V = B/P. Onde V = valor. B = Benefícios e P = Preço.

Assim, no mercado de negócios, podemos entender que a palavra valor será sempre analisada sob o ponto de vista monetário, embora não seja sinônimo de preço (uma confusão que muitas vezes ocorre). E podemos também entender que, se a empresa fornecedora é quem determina o preço, o cliente é quem determina o valor. Daí a idiossincrasia do termo!

O que o cliente percebe como sendo o conjunto de benefícios técnicos, econômicos, sociais, de utilidade, de imagem, status etc é o que determinará o valor que será atribuído a um produto ou serviço. É, portanto, um conceito “caso a caso”, “momento a momento”.

No nosso exemplo inicial, Ricardo III atribui ao cavalo a importante utilidade (benefício) de lhe salvar a vida. Portanto, naquele momento e sob aquelas circunstâncias, ele se tornou tão valioso quanto o seu próprio reino. Como aquela era uma circunstância inusitada, não poderíamos esperar que a partir dali todos os cavalos passassem a valer tanto.

Porém, é isso que tentam fazer algumas empresas que se esquecem dessa lição tão simples e que vamos repetir à exaustão: quem determina o valor de um produto ou serviço é o cliente!

Uma pesquisa apresentada no Journal of Marketing em julho de 1988 por Valarie Zeithami mostra que, embora a maiorias dos respondentes tenha concordado com associações relativas à qualidade, os padrões de respostas do estudo exploratório podiam ser agrupados em quatro definições de valor dadas pelos clientes:
1-      Valor é preço baixo;
2-      Valor é qualquer coisa que eu queira em um produto;
3-      Valor é a qualidade que eu obtenho pelo preço que eu pago;
4-      Valor é o que eu consigo pelo que eu dou.

Em função desses agrupamentos, Zeithami assume que valor é então um pacote de benefícios associados a uma oferta, comparados contra o preço total de aquisição e de uso da oferta.

Entram aqui, portanto, mais dois conceitos que valem o reforço: a conveniência e a facilidade de uso.

Isso tudo parece tão simples, não é?

Por que será, então, que determinadas empresas têm tanta dificuldade em definir sua proposição de valor ao cliente, o correto preço de sua oferta perante o mercado, o seu diferencial de valor quando comparado com a concorrência, a correta forma de distribuição para tornar fácil o acesso ao produto (conveniência) e o correto nível de atendimento pós-vendas (para ampliar a facilidade de uso)?

Tenho cá para mim que isso ocorre porque em determinados momentos essas empresas esquecem de ouvir seu público-alvo, clientes ou não. Digo “em determinados momentos” porque tenho plena convicção que a empresa que esquece continuamente de ouvir seus clientes, rapidamente morre e, portanto, já não entra no foco de nosso questionamento.

Ouvir clientes e prospectos pode não ser sempre fácil, mas é fundamental. E é importante que eles sejam ouvidos em cada momento chave durante o ciclo de desenvolvimento, produção, vendas e atendimento pós-vendas.

É assim que começam as principais ações de marketing: ouvindo prospectos e clientes sobre o que necessitam e desejam e interpretando até mesmo as necessidades e desejos não explícitos. É assim também que a ações de marketing sobre um produto/serviço não devem se desunir do atendimento pós-vendas, verificando sempre como o produto/serviço pode ser continuamente aperfeiçoado (sob o ponto de vista do cliente) e garantindo um fluxo de lucratividade saudável para a empresa.

Ações simples como ouvir e atender o cliente naquilo que está ao alcance da empresa podem garantir não apenas o valor dos produtos e serviços comercializados perante os olhos do público consumidor, como também o valor da própria empresa perante o mercado de negócios.

Ser um profissional que compreende e aplica o princípio básico da audição em busca de satisfação dos desejos e necessidades do cliente (interno ou externo) também amplia o seu valor perante o mercado de trabalho.


Nota da autora: esse artigo foi publicado originalmente em 27/08/2007 e até o momento desta postagem pode ser encontrado também em http://playit.com.br/leia/artigos/vale-quanto-pesa-parte-1/. Postei novamente aqui para assegurar que ele permanecerá publicado caso eu decida tirar do ar o site original, o que pode acontecer a qualquer momento. 

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