Fiquei feliz logo cedo ao ver a homenagem do Google a Fernando Pessoa. Sem dúvida alguma, muito merecida.
Num país em que a educação tem perdido mais e mais a qualidade, fiquei a me perguntar, porém, que tipo de conexão podem os jovens de hoje fazer com Fernando Pessoa?
Se estamos a liberar (para escrever em português de Portugal) a decadência da língua até mesmo em livros escolares oficiais, em pouco tempo, talvez, já não tenhamos jovens aptos a ler – muito menos a compreender – a riqueza de Fernando e seus heterônimos.
Esse texto, porém, não se destina à crítica governamental, mas ao elogio a um gênio.
Fernando foi, é, e sempre será sempre para mim uma grande fonte de admiração e de inspiração.
Considero-o o mais transpessoal de todos os poetas da língua portuguesa. Sua compreensão da unidade, seu interesse pela metafísica e, paralelamente, seu afastamento da religiosidade são pontos que impressionam a quem adentra estudos atuais de psicologia.
Famoso e respeitado por seus versos, Fernando é autor também de vasta obra em prosa.
Para apresentar um minúsculo exemplo de suas características transpessoais e um pouco de sua prosa, transcrevo aqui um pequeno trecho do livro “O Eu Profundo”. Pressupõe-se que esse texto tenha sido escrito em 1916, o que me leva a crer que seja anterior à definição das quatro funções psíquicas (razão, emoção, intuição e sensação), realizada por Carl Jung.
“Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias.
- Mas o que é sentir?
Ter opiniões é não sentir.
Todas as opiniões são dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?]. Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – são os únicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos são divinos porque são a nossa relação com o Universo, e a nossa relação com o Universo Deus.
[...]
Agir é descrer. Pensar é errar. Só sentir é crença e verdade. Nada existe fora das nossas sensações. Por isso agir é trair o nosso pensamento.
Não há critério da verdade senão não concordar consigo próprio. O universo não concorda consigo próprio, porque passa. A vida não concorda consigo própria, porque morre. O paradoxo é a fórmula típica da Natureza. Por isso toda a verdade tem uma forma [?] paradoxal.
[...] Afirmar é enganar-se na porta.
Pensar é limitar. Raciocinar é excluir. Há muito que é bom pensar, porque há muito que é bom limitar e excluir.”
E nem preciso escrever mais nada...

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